“Ginga é Golpe no Silêncio”

dezembro 10, 2025 0 Por admin
Eu chego gingando.
Não por estilo,
mas porque meu corpo aprendeu cedo
que ficar parado é morrer devagar.

Capoeira não é dança,
não é luta,
não é jogo.
Capoeira é resposta.
É o jeito que o povo preto encontrou
de gritar
sem abrir a boca.

É disfarce.
É estratégia.
É sobrevivência coreografada.

Porque se o colonizador via dança,
ele não via perigo.
E enquanto ele aplaudia,
a gente tramava liberdade
no compasso do berimbau.

Não vem dizer que é só esporte, não.
Esporte é o que passam na TV.
Capoeira é o que o livro de história não teve coragem de contar.

É a queda que ensina.
É a rasteira que devolve.
É a ginga que nega o golpe,
mas nunca nega a identidade.

Eu jogo com quem veio antes:
Zumbi, Besouro Mangangá,
tanta gente que virou vento,
mas ainda sopra no ouvido
de quem entra na roda:

— O corpo é arma.
A memória é munição.

E quando o berimbau canta,
ele não canta sozinho.
Canta o navio.
Canta o tronco.
Canta a fuga.
Canta a volta.
Canta tudo que tentaram calar
e não coube no silêncio.

Eu digo: Capoeira é poema armado.
É oração de pé descalço.
É filosofia que não cabe em tese,
mas cabe na pele.

E se você não entendeu,
chega mais perto.
Porque na roda ninguém olha de cima.
Ninguém gira sozinho.
Ninguém vence —
porque o que vence, mesmo,
é o movimento.

E eu continuo gingando.
Não por estilo.
Mas porque meu corpo sabe
que quem nasceu para resistir
nunca fica parado.