No Quilombo Zizi de Zeca, o tempo não corre — ele caminha no ritmo do atabaque. É como se cada batida fosse um passo firmado na terra antiga, aquela que guarda nomes, histórias e segredos contados baixinho pelos guias que guardam aquele lugar
A roda começou simples, como quase tudo que nasce verdadeiro. Primeiro, o som seco da palma das palmas. Depois, o atabaque respondeu. E antes que alguém estivesse cansado, o terreiro já estava tomado por um cheiro de terra molhada, suor bom e lembrança.
O samba de roda ali não é apresentação: é sobrevivência bonita.
Cada giro da saia é um jeito de acordar quem veio antes. E parecia que Dona Zizi, mesmo já costurada no céu, ainda soprava no ouvido das mulheres:
— sambem sem medo. O mundo precisa do balanço de vocês.
E elas sambavam. Sambavam como quem espalha perfume de força. Sambavam como quem reza dançando. Sambavam como quem sabe que corpo também é documento.
Na beira da roda, o atabaque era tocado com a firmeza de quem reconhece o próprio território de olhos fechados. A voz do ogan subia rouca, cheia de estrada, cheia de ancestralidade. Era canto de quem não cantava só para o agora — cantava para manter o quilombo de pé, vivo, pulsando.
Eu fiquei ali, meio tímido, meio tocado, observando o axé subir. Era uma Sincronia bonita, daquelas que dançam junto com a gente. Cada partícula me parecia um pedacinho de história levantado do chão, como se o samba tivesse o poder de virar a terra do avesso para nos lembrar de quem somos.
No Quilombo Zizi de Zeca, ninguém dança sozinho. Mesmo quando o corpo é um só, a alma vem acompanhada.
E quando entrei na roda — porque ela sempre chama — percebi que não era apenas uma dança. Era um jeito de dizer ao mundo:
“Estamos aqui. Sempre estivemos. E dançaremos enquanto houver chão.”
O samba rodou até a tarde ficar macia. E quando tudo terminou, percebi que eu havia levado algo comigo: não era o ritmo, nem o passo — era a certeza de que o quilombo dança para que a memória não se cale.
E ali, naquele pedaço de Bahia chamado Zizi de Zeca, o samba continua plantando raiz. E cada batida de atabaque é um lembrete de que a liberdade, quando dança, não cai.