Eu chego gingando. Não por estilo, mas porque meu corpo aprendeu cedo que ficar parado é morrer devagar.
Capoeira não é dança, não é luta, não é jogo. Capoeira é resposta. É o jeito que o povo preto encontrou de gritar sem abrir a boca.
É disfarce. É estratégia. É sobrevivência coreografada.
Porque se o colonizador via dança, ele não via perigo. E enquanto ele aplaudia, a gente tramava liberdade no compasso do berimbau.
Não vem dizer que é só esporte, não. Esporte é o que passam na TV. Capoeira é o que o livro de história não teve coragem de contar.
É a queda que ensina. É a rasteira que devolve. É a ginga que nega o golpe, mas nunca nega a identidade.
Eu jogo com quem veio antes: Zumbi, Besouro Mangangá, tanta gente que virou vento, mas ainda sopra no ouvido de quem entra na roda:
— O corpo é arma. A memória é munição.
E quando o berimbau canta, ele não canta sozinho. Canta o navio. Canta o tronco. Canta a fuga. Canta a volta. Canta tudo que tentaram calar e não coube no silêncio.
Eu digo: Capoeira é poema armado. É oração de pé descalço. É filosofia que não cabe em tese, mas cabe na pele.
E se você não entendeu, chega mais perto. Porque na roda ninguém olha de cima. Ninguém gira sozinho. Ninguém vence — porque o que vence, mesmo, é o movimento.
E eu continuo gingando. Não por estilo. Mas porque meu corpo sabe que quem nasceu para resistir nunca fica parado.